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Bàbá Sanin: O Orixá na Omolokô!

Por Adéráyọ̀ - Caio de Oxum Opará · Pai Pequeno

A tradição de Omolokô, seja dentre os que a consideram um culto próprio, seja dentre os que a consideram uma vertente de Umbanda, carrega múltiplas raízes. Enquanto a estrutura do culto per se é assumida como herança étnica Lunda Tchokwe, o culto iniciático aos orixás, inquices e voduns, mais conhecidos de outras religiões afrodiaspóricas, tornou-se um de seus elementos centrais – em amálgama ao que se chama de “bakuro, ancestral divinizado que, por vezes, deturpa-se como “falangeiro”.

Recorrentemente, em face do desconhecimento da própria história do culto, surgem acusações acerca da Omolokô plagiar o panteão e liturgia iniciática do Candomblé de Ketu ou de Angola, o que não poderia estar mais distante da verdade, ao menos quando falamos com transparência sobre uma de suas principais linhagens mapeadas.

Assim como o Candomblé, em origem, foi uma encruzilhada de práticas espirituais de diferentes etnias africanas, com a inserção de uma fundamentação iorubá no complexo pré-existente dos calundus, a Omolokô seguiu rumos similares por meio da Cabula, da Macumba Carioca e de outras expressões mágicas praticadas no Rio de Janeiro do século XIX. A entrada dos orixás nas denominações de orientação nagô, ocorreu em circunstâncias muito similares – conectadas – à formação dos primeiros candomblés.

O primeiro candomblé nagô formalizado em contornos similares aos que se tornaram padrão de nosso tempo foi o Ilê Axé Iyá Nassô Oká – Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho –, seguido pelo Terreiro do Gantois e pelo Ilê Axé Opô Afonjá. Este último, por sua vez, fora fundado primeiro no Rio de Janeiro para só depois aportar em Salvador. Tais casas foram estabelecidas com a importação de sacerdotes iorubás nativos ao Brasil, auxiliando as matriarcas da tradição no estabelecimento da complexa liturgia que se vislumbra nas matrizes. Destacam-se Bamboxê Obiticô (Bámgbóṣé Obítikó), famoso babalaô e fonte do jogo de búzios mais propagado na diáspora, a própria Iyá Nassô, sua amiga e conterrânea, e aquele que dá título ao presente artigo, Bàbá Sanin - o "introdutor" do orixá nas tradições de Omolokô.

Nascido Assumano Sau Adió – sendo “Assumano” uma adaptação do árabe Ussman ou Uthman – e ganhando no Brasil o nome Joaquim Vieira da Silva, Bàbá Sanin era também conhecido pelas alcunhas Oba Sanya, Tio “Sanhá” ou simplesmente Tio Joaquim. Poucos registros sobreviveram, mas membros ilustres do candomblé como o Prof. Agenor Miranda e o Prof. José Beniste o caracterizaram através da oralidade: iorubá de nascimento, babalaô e possivelmente também sacerdote de Xangô advindo de Oyó (como o próprio Bamboxê), e um dos fundadores do Ilê Axé Opô Afonjá ao lado de Mãe Aninha. A referida sacerdotisa.  iniciada na Casa Branca, partiu ao Rio de Janeiro acompanhada de Bàbá Sanin para lá fundar a primeira casa de nome Opô Afonjá, regressando à Bahia posteriormente para fundar o templo homônimo da cidade de Salvador, movimento concluído por volta de 1910.

Tem-se então a presença de Bàbá Sanin como um dos sacerdotes iorubás responsáveis pelo estabelecimento dos primeiros candomblés institucionalizados. Entretanto, sua história é mais complexa e perpassa também os encontros e desencontros da Macumba Carioca, berço do Omolokô como se entende hoje.

Segundo a genealogia traçada por Tata Gilberto de Madé – Ofé Karofagi –, iniciado de Tancredo e suma referência da Omolokô em Minas Gerais, a procedência iniciática de seu sacerdote se volta à “Tia Benedita Iyaduxé” que, por consequência, remonta sua feitura ao Obakayode, Bàbá Sanin e Osarina Sau Adió – esposa do indivíduo aqui homenageado, cuja nacionalidade brasileira permitiu-lhe crescer no Tambor de Mina. Os três sacerdotes, de orientação majoritariamente iorubá, teriam sido iniciados na linhagem “Lunda Kioko”, cujo mapeamento pretérito se perde no tempo, mas remonta miticamente ao famoso Chico Rei, também conhecido como Galanga. Chico é personagem famoso do folclore de Minas Gerais, sobre o qual pouco se sabe de fato. Ele teria sido um monarca da etnia Lunda Tchokwe, escravizado no Brasil e depois alforriado. Tornou-se líder de resistência quilombola e propagador do culto ancestral remente às suas origens angolanas em África.

Ao comparar relatos de diferentes famílias que arrogam a presença de Tancredo em suas linhagens, não se tem consenso acerca da localização de Bàbá Sanin quando de sua iniciação na “macumba”, mais tarde chamada Omolokô. Enquanto alguns aventam Minas Gerais – onde o Reinado ainda guarda ligação mítica com Chico Rei –, outros alegam Rio de Janeiro, na profusão cultural da Pequena África e suas imediações. Fato posto, apesar de sua proximidade notória com Mãe Aninha e seu papel nas casas matrizes do Candomblé Ketu, Bàbá Sanin foi também um reconhecido feiticeiro, aprendiz de todos os recursos disponíveis que pudessem agregar em seu ofício. Pode-se mencionar, inclusive, a própria magia islâmica da qual “Assumano” era um profundo conhecedor por ser – além de sacerdote dos orixás – um iorubá de raízes malês.

Não é de se surpreender, portanto, que Bàbá Sanin tenha assimilado o culto “Lunda Kioko”. A prática em questão já era reconhecidamente detentora de fortes trabalhos com os ancestrais e demais espíritos manifestos sob incorporação, contemplando todo um arsenal de técnicas que viria a se denominar “quimbanda” nas décadas seguintes, ao se individualizar frente ao embranquecimento umbandista. O que melhor atesta tal dinâmica é a passagem escrita por João do Rio em sua obra – tristemente racista – publicada em 1904, na qual o autor narra seu encontro com Bàbá Sanin.

"Sanin começou a falar dos feitiços dos outros, lembrou-se dos seus aos bocados, e em pouco, com a esperança de ganhar mais, fazia-me revelações. Cada feiticeiro tem feitiços próprios. Abubaca Caolho, o alcoólico da rua do Resende, tem o ibá, cuia com pimenta-da-costa e ervas para fazer mal. Quando se fala do ibá, diz-se simplesmente: o feitiço do Abubaca. Gia, cabeça de pato com lesmas e o cabelo da pessoa, é uma descoberta de Ojô e serve para enlouquecer. Quem quer enlouquecer o próximo, arranja ou falsifica a obra de Ojô.

— Mas Baba Sanin, como é que sabe tudo isso?...

— Então, não aprendi? Eu sei tudo.

E como sabe tudo, dá-me receitas. [...] O malandrão Bonifácio da Piedade acaba um cidadão pacato apenas com cuspo, sobejos e treze orações. [...] Há feitiços para tudo. Sobejo de cavalo com ervas e duas orações, segundo Alufá Ginja, produz ataques histéricos; um par de meias com o rastro da pessoa, ervas e duas orações, tudo dentro de uma garrafa, fá-la perder a tramontana; cabelo de defunto, unhas, pimenta-da-costa e ervas obrigam o indivíduo a suicidar-se.

[...]

— Mas para dar sorte, caro tio?

— Há mão de anjo roubada ao cemitério em dia de sexta-feira.

[...]

— E para fazer um casal brigar?

— Cabeça de macaco, aranha e uma faca nova.

— E para amarrá-los por toda a vida?

O negro pensou, olhando-me fixamente:

— Um obi, um orobô, unhas dos pés e das mãos, pestanas e lesmas...

— Tudo isso?

— Preparado por mim.

Então Sanin fala-me dos seus feitiços. Sanin é poeta e é fantasista. Sob a dependência de Ojô, quase seu escravo, esse negro forte, de quarenta anos, trouxe do centro da África a capacidade poética daquela gente (...). Para conquistar, Sanin tem um breve, que se põe ao pescoço. [...] Sanin é também mau — mas de maneira interessante. Os seus trabalhos de morte são os mais difíceis. Sanin ao meio-dia levanta no terreiro uma vara e reza. Pouco tempo depois sai da vara um maribondo e o maribondo parte, vai procurar a vítima, e não para enquanto não lhe inocula a morte. [...]"

RIO, João do. Os novos feitiços de Sanin. In: RIO, João do. As religiões do Rio.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. (Coleção Biblioteca Manancial, n. 47).

As partes flagrantemente racistas foram omitidas.

Para além da leitura degradante do autor citado, observa-se que o quão engajado foi Bàbá Sanin nas trocas de saberes e técnicas entre os demais praticantes de magia do Rio de Janeiro de seu tempo. Como atesta a oralidade dos “tancredistas”, é dessa mironga (mistura) que nasce a Umbanda Omolokô, assimilada ao culto iniciático do panteão iorubá. Nota-se que a linhagem de Omolokô advinda de Bàbá Sanin é irmã legítima do Candomblé Ketu.

E quais seriam suas diferenças?

O Candomblé carrega em sua base a recriação das antigas monarquias de Oyó, uma corte sobretudo política e civilizacional que se ocupa de uma opulência que vai além da vida comum, adentrando a reorganização de um império étnico e de uma casta sacerdotal na diáspora iorubana. Já a Omolokô, assumindo o culto aos orixás como parte de seu cabedal, mantendo os fundamentos basais do processo iniciático – em algumas famílias mais do que em outras –, insere-se na premissa Lunda Tchokwe: sobrevivência e transmissão de um legado ancestral que comunga com o seu povo e vice-versa. A tradição de Omolokô se acopla à simplicidade familiar e tece a continuidade de uma resistência que somente o “malandro” carioca, tal como fora descrito Bàbá Sanin por João do Rio, daria conta de concretizar.

Em síntese, Bàbá Sanin trouxe em muitas linhagens os mesmos fundamentos essenciais do culto iniciático aos orixás que foram instrumentalizados na formação do candomblé, fazendo da Omolokô uma irmã – sim, mais discreta e mais doméstica – das tradições conhecidas de Nação Ketu. Obviamente, as trocas, os encontros e desencontros são constantes há vertentes que se denominam “Omolokô” e que arrogam origens distintas, perpassando personagens como Maria Batayo, ou surgindo através de simbioses entre a macumba e os candomblés como o de Joãozinho da Goméia. A pluralidade é parte intrínseca da denominação e a trajetória de cada família deve ser respeitada.

No que tange às muitas e distintas linhagens originadas em Tata Tancredo, o culto de orixá é mais do que legítimo. Ele é rastreado até os próprios iorubás, com a chegada do coletivo formado por Bàbá Sanin, Obakayode e outros tantos. A partir das trocas entre estes agentes e outros personagens como Bamboxê, tem-se o aporte da tradição em Oyó, no método “obiticô” de jogo de búzios e também no método obaniká – proposto por Tancredo –, e nada se deve a quem quer que seja na diáspora pelo que fazemos, pelo que cultuamos, e naquilo em que fomos – com muito amor e dedição – iniciados.

Viva Bàbá Sanin, Tia Iyaduxé, Tata Tancredo. E viva a Umbanda Omolokô!