Ir para o conteúdo
Artigos
Artigos

O Orixá Ensina

Por Adéráyọ̀ - Caio de Oxum Opará · Babá Kekerê

O panteão dos orixás, inquices e voduns encerra um vasto cabedal de sabedoria, bem como métodos precisos de interpretação destinados à aplicação desse conhecimento em nossas vidas. Na tradição de Omolokô, o jogo de búzios (ẹ́ẹ́rìndínlógún, em iorubá), juntamente com o obi — outrora “alobaça”, prática na qual uma cebola era empregada na divinação em substituição à noz-de-cola africana, então raríssima —, constitui os principais meios de comunicação com o sagrado em âmbito de terreiro.

No jogo de obi, pode haver uma série de acréscimos às oferendas, bem como uma miríade de recomendações acerca do que se deve ou não fazer, a partir do que se apura com o oráculo durante um ritual de culto prestado ao orixá. Já entre os búzios, os dezesseis “odus” apresentam uma série de “itans” (mitos), repletos de múltiplas camadas interpretativas e de prescrições que lhes são associadas. O conselho trazido em cada história possui um teor próprio, tal como o odu per se — esteja ele em condição positiva ou negativa — traz também uma camada geral de significados. Contudo, uma mesma história pode conter diferentes aspectos, conforme a maneira pela qual se projeta sobre a circunstância particular examinada no momento da consulta oracular.

Consideremos o Oxé (nº 5). Quando negativado, pode indicar problemas relacionados ao mau uso das ambições, traição, perdas decorrentes de acordos inconsequentes, dentre outras coisas. Neste odu, há um itan que narra como Oxum conquistou suas riquezas ao perturbar a paz de Oxalá que, para se ver livre do incômodo, cede seus tesouros à deusa. Quando este enredo é apurado em consulta, pode-se interpretar que a conquista daquilo que se almeja implicará a perturbação da paz de alguém, seja a própria, seja a de outrem. Diante desse cenário, o consulente pode ser Oxum, que precisa incomodar, turbar a tranquilidade da outra parte a fim de alcançar aquilo que deseja, ou pode ser Oxalá, cuja paz se vê perturbada por alguém que pretende obter algo de sua parte. As possíveis soluções para o impasse serão recomendadas conforme a posição que se compreenda aplicável ao consulente naquela narrativa específica.

Complexo, não é?

Tal exemplo nos mostra que o direcionamento dos orixás pode ser extremamente específico para uma determinada pessoa, em consonância com a situação particular em que ela se encontra. Isso ocorre porque assim também é o AXÉ (força vital, poder) da divindade. Ele se manifesta de diversas formas, e nem sempre a forma de manifestação adequada a determinada circunstância produzirá efeitos igualmente positivos em outra. Portanto, é de suma importância ao iniciado e ao devoto, sempre que possível, consultar o oráculo para saber como agir diante das vicissitudes e dos desafios que se apresentam ao longo da vida. Trata-se de um pilar fundamental da nossa religião.

Assim percebendo, somos colocados diante de um sério problema: os estereótipos impostos a cada orixá e as conclusões que as pessoas deles extraem — não raro, de maneira equivocada — acerca de como empregar o seu axé em uma situação concreta. Oxum, aqui exemplificada, é tida como doce e vaidosa, mas, em diversas histórias, revela-se também uma estrategista astuta e ardilosa no contexto da guerra. Em outros, ela cobra o que lhe é devido, mesmo que sua atitude possa assumir contornos de severa crueldade. Ademais, ela ensina a colocar a si mesma acima de qualquer pessoa e a concentrar seu amor, seu zelo e seus esforços naquilo que é — simbólica ou literalmente — o seu tesouro (o ouro ou o bronze, tão associados à Oxum).

Movido pela ideia simplista de que “Oxum é amor”, o devoto poderá sacrificar-se pelas pessoas erradas, porque as ama de fato, quando, em determinada circunstância, o axé de Oxum corretamente empregado deveria justamente impeli-lo a apartar-se das relações que o adoecem — ou, ao menos, a conduzi-las de maneira menos destrutiva.

Obaluaiê, senhor do silêncio, ensina, de modo amplo, o valor da palavra e que, em muitos momentos, é melhor calar-se e observar. Contudo, é também a própria divindade que se apresenta capaz de conjurar maldições contra os injustos e desonestos. É Ele a divindade que, ao andar pelo mundo, pode espalhar a doença para, posteriormente, oferecer a cura, quando necessário. Se tomarmos a ideia do silêncio como absoluta, corremos o risco de nos omitirmos diante de situações nas quais, possivelmente, Obaluaiê nos exortaria precisamente a falar e a agir em defesa de nós mesmos ou de nossa comunidade - que não se restringe ao terreiro!

É necessário compreender que o orixá é complexo demais para ser reduzido a fórmulas gerais, regras universais ou recomendações previamente tabeladas. Do mesmo modo, é preciso extrema cautela quando nos deparamos com estereótipos imprecisos diante da riqueza e da complexidade dos mitos tradicionais acerca das divindades. Isso é especialmente perigoso nas redes sociais, onde muito conteúdo é reproduzido de maneira genérica, descontextualizada e destituída do devido rigor.

Enquanto muitos filhos de Oyá se julgam “barraqueiros”, “nervosos”, “explosivos”, por enxergar assim a sua divindade, os mitos e a sabedoria ancestral acerca do referido orixá mostram justamente o contrário. Iansã é extremamente disciplinada e soberana. Ela é senhora de suas próprias emoções, e é precisamente essa soberania sobre si mesma que lhe possibilita triunfar na guerra. O axé de Oyá é necessário às pessoas naturalmente destemperadas para que elas retifiquem seu comportamento bélico e desenfreado, não como se a deusa balizasse o ímpeto aqui descrito.

O mesmo pode ser dito de Oxóssi, capaz de conceder foco e determinação aos seus filhos, e não distração. Ou de Iemanjá, que ensina a dar vazão aos sentimentos de modo sábio — e respeitoso! — e a empregar adequadamente as palavras, em vez de transformar a expressão das próprias emoções em reclamação constante ou em prática de fofoca. Quando o estereótipo ou o achismo pessoal substituem a essência do orixá na tradição, tal como ela se manifesta por meio do oráculo e dos ensinamentos transmitidos aos pés dos mais velhos, o devoto corre um sério risco de agir na contramão do que a divindade ensina. E pior: convencido de estar trilhando o caminho correto, pode aprofundar progressivamente os próprios problemas, amparando-se em balelas meritocráticas para racionalizar e justificar suas próprias misérias.

Orixá deixou a tradição, o oráculo e a sabedoria nele contida para que a comunidade possa discernir e aplicar corretamente o axé que recebe através do culto. Portanto, procure sempre se orientar pelas fontes legítimas e pelos métodos tradicionais adequados, e sua caminhada será certamente muito mais abençoada.